Quinta-feira, 24 de Maio de 2007
Desabafos
Ouvi os teus passos. Soaram pesados na minha cave como quem não sabe para onde ir. Vi-te aparecer, não vinhas com o humor do costume, senti-te triste pois os teus passos não soavam com a alegria e o dinamismo do costume. Quem é de madeira como eu sabe diferenciar o som dos passos a bater nos degraus de madeira que levam ao meu lar. Não eram os passos que anunciam uma alegre festa de compinxas que se juntam para me deixarem mais leve e cada vez mais pronto para receber uma nova colheita.
Estavas mesmo com ar de quem viu algo que não gostou, algo que te tocou profundamente. Nada disse esperei que derramasses o meu néctar no copo vazio e te sentasses no teu banco preferido, aquele que usas para pensar nos teus problemas, nas coisas da vida como costumas dizer.
Eu já sabia o que ia acontecer, ias vazar o copo, enchê-lo novamente e depois falavas comigo, o teu companheiro de desabafos, aquele a quem contas os teus medos, os teus sonhos, os teus desejos que não confessas a mais ninguém.
E assim foi, bebeste e deixaste sair o que te ia na alma, desabafaste comigo um simples barril de madeira.
“ Não compreendo as pessoas, como é que é possível que alguém possa maltratar assim as crianças, já não bastava a miséria que existe no mundo ainda tem que haver pessoas que fazem estas coisas. Esta estória do desaparecimento da miúda inglesa está-me a dar a volta ao miolo. Como é possível alguém deixar três crianças sozinhas num quarto e ir jantar. Como é possível alguém ter a coragem de no meio da noite entrar num local e levar uma dessas crianças. Tudo isto faz-me muita confusão, há aqui algo que não bate certo, não sei bem o quê mas não faz sentido, não tem qualquer lógica. Como é que no mundo podem existir pessoas assim? Ainda no outro dia ia apanhar o cacilheiro no Cais Sodré e à minha frente seguia um homem aparentando cerca de 30 e tal anos com um miúdo com cerca de 3 anos pela mão. Reparei neles porque o miúdo queria olhar para a água na rampa de acesso ao cais de embarque e o pai puxava-o Reparei, aliás dava para se perceber de imediato, que o homem estava embriagado. Era notória, a forma como falava, o cambalear com a criança pela mão. O miúdo continuava a querer olhar o Tejo e o pai puxava-o balbuciando palavras que não consegui entender. Quando ele se dirigiu ao barco fiquei um pouco preocupado e segui logo atrás deles não fosse o homem na sua embriaguez deixar o miúdo escapar-se e ele cair ao rio como tal não aconteceu e entraram bem no barco fiquei mais descansado e dirigi-me para a popa. Sentei-me lá fora estava um dia bonito de sol e aproveitei para contemplar o Tejo. Passados uns minutos apareceu o homem com o miúdo e já trazia com ele uma cerveja ( estes barcos modernos têm bar ) pensei logo para comigo, já vais jeitoso ainda precisas de mais bebida? Sentaram-se e a criança continuava a querer ver a água, espreitar pela amurada do barco, aquelas coisas naturais dos miúdos. A certa altura um dos tripulantes do barco apareceu por ali e colocou-se perto deles e entabulou conversa com o homem, ou pelo menos tentou. O miúdo cada vez que se aproximava da amurada, em pé em cima dos bancos para espreitar, era o tripulante, ou uma senhora que estava sentada ali perto que o segurava impedindo que se debruçasse para ver a água. Enquanto durou a viagem, ele torceu-lhe e apertou-lhe as mãos, chegando inclusivamente a dar-lhe uma chapada na cara embora não tenha sido com força. O certo é que nisto tudo a criança, que até parecia ser uma criança feliz, ainda chorou uma vez, mas mesmo assim não perdia a sua vivacidade e curiosidade natural. A certa altura o barco parou e ficou “plantado” a cerca de 50 metros da margem. Estivemos ali parados cerca de 20 minutos. Apercebi-me que algo se passava. Se bem pensei mais depressa o acertei, pois o mestre do barco disse qualquer coisas aos altifalantes do barco e as pessoas começaram a sair para o exterior e olhavam muito para o homem. Achei aquilo muito estranho e quando atraca-mos a polícia estava lá, à espera do homem e da criança. Alguém telefonara, penso que a senhora que estava ali sentada, a denunciá-lo por maus tratos. A paragem no rio foi apenas a desculpa para se aguardar a chegada da polícia. É claro que os mirones juntaram-se todos no cais a ver o que se passava. Era maus tratos para aqui e para ali. Fiquei ali uns momentos a olhar aquela cena, parecia uma autentica caça às bruxas, pessoas que não tinham assistido a quase nada ali a dar palpites. Segui a minha viagem pois o caso estava nas mãos das autoridades, mas fiquei com pena da criança. Um pai que bebe que anda assim com ela pela rua, na volta até quando está sóbrio até é bom pai, sinceramente não sei, mas para ser assim mais vale não os terem.
A criança tinha um aspecto limpo e cuidado, não estava subnutrido nem nada, uma criança aparentemente normal que terá sido feito dela, entregaram-na à assistência social, que os enfiam em Casas Pias e Casas do Gaiato onde estão à mercê sabe-se lá de quem, ou deram um valente puxão de orelhas ao pai, levaram-no para a esquadra até lhe passar a bebedeira e chamaram a mãe? Sinceramente espero que tenham tido o discernimento necessário, que não tenham feito daquilo um quebra cabeças e terem tido em conta os melhores interesses da criança. 
É o que te digo não entendo como é que há pessoas assim, que conseguem fazer mal ao futuro.”
Olhei para ti, enchi-te o copo mais uma vez e ficámos em silencio entregues aos nossos pensamentos, ambos cientes que o mundo é um lugar cheio de coisas boas e outras menos boas e nem toda a gente tem a sorte de ter um amigo assim como eu, nem mesmo que seja só de madeira.
publicado por Passo às 14:54
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